Bilinguismo: uma nova língua pode confundir o cérebro da criança?

Bilinguismo: uma nova língua pode confundir o cérebro da criança?

De acordo com dados do Ministério da Educação (MEC), a busca por escolas bilíngues aumentou 64% nos últimos 5 anos. Um dos principais fatores apontados no estudo é a  procura (e a vontade) dos pais em não perder a “janela de oportunidade” de aprendizado das crianças, mesmo que muitos destes responsáveis ainda tenham medo da forma de ensino “atrapalhar” o processo de alfabetização infantil. 

Afinal, existe um senso comum de que ter contato com duas línguas diferentes na primeira infância pode confundir a fala e a memorização das palavras. A verdade é que isso não se passa de um neuromito (mitos da neurociência). Não há comprovações científicas de que trabalhar o pensamento de duas línguas em conjunto pode ser prejudicial à cognição.

Pelo contrário, comparativamente, o ensino bilíngue pode trazer mais benefícios do que riscos ao aprendizado.

Aproveite o conteúdo e confira nossa live sobre os neuromitos na educação:

O que é bilinguismo?

O bilinguismo pode ser definido como a capacidade de uma pessoa (criança ou adulto) de se comunicar em duas línguas. Aqui no Brasil, muitas vezes está associado ao português, língua nativa, e o inglês, língua mais falada no mundo. 

O conceito se divide em dois formatos: bilinguismo simultâneo e bilinguismo sequencial. No simultâneo, escolhe-se ensinar as duas línguas a partir do nascimento. Já no sequencial, a segunda língua vem após a primeira ser ensinada, geralmente, após a primeira infância. 

Uma língua se mistura com a outra?

Ao aprender duas línguas juntas é muito provável que a criança (e até mesmo adultos) construa frases usando palavras destes dois universos e até inventem palavras que juntam sons comuns a eles. Por isso, muitas pessoas tendem a acreditar que o desenvolvimento da linguagem na infância seja mais lento ou possa acarretar falta de repertório.

“De fato, crianças bilíngues conhecerão certas palavras na primeira língua e outras na segunda. Por isso, será comum combiná-las em uma mesma frase e até inventar palavras entre as duas línguas. Trata-se de um fenômeno normal do bilinguismo, tanto entre crianças como entre adultos” – Adriana Fóz e Alcione Marques, diretoras da NeuroConecte.

Nos primeiros estudos comparativos, realizados entre crianças monolíngues e bilíngues, os estudiosos chegaram a acreditar que os bilíngues estariam em desvantagem neste quesito. Mas, o que ocorreu foi que na ocasião foram consideradas as duas línguas isoladamente. Ao juntar os dois repertórios, percebeu-se rapidamente que o vocabulário construído é igual ou superior aos monolíngues. 

Maior concentração e agilidade

Para conseguir se comunicar com a língua dominante, por exemplo, a criança bilíngue ativa funções do cérebro relembrando sons, fonemas e palavras, ampliando seu grau de concentração. Estas “funções executivas” são responsáveis pelo sistema de controle cerebral, ajudam a organizar comportamentos e pensamentos, filtrar informações importantes e resolver problemas com agilidade e eficiência. 

Por isso, ajudam as crianças a bloquearem os barulhos secundários (como sons ambientes) e focarem na atividade que estão executando. E vão além. Uma criança bilíngue consegue, com o passar do tempo, conversar com uma pessoa em uma língua e, na sequência, se comunicar com outra pessoa com a língua secundária.

Pequenos especialistas

Por outro lado, há muitos pais preocupados em matricular os filhos em escolas bilíngues antes dos 3 anos de idade. Estudos recentes mostram que quanto mais cedo tivessem contato com uma segunda língua, maior a chance de se tornarem fluentes ou especialistas. Apesar de perceberem o potencial com a idade avançando, um cérebro saudável não perde a capacidade de se organizar.

“Não é um fato científico consistente estabelecer que o aprendizado de algumas habilidades, como a linguagem, só pode se dar até determinada idade. De acordo com essa crença, passada a “janela de oportunidade”, a criança enfrentaria muita dificuldade ou mesmo não conseguiria desenvolver certas capacidades, como para aprender uma nova língua”, explicam Adriana Fóz e Alcione Marques no e-book “NeuroPapo”. No entanto, já é consenso nos campos da neurofisiologia e neurociência que um cérebro saudável nunca perde sua capacidade de se reorganizar. É fato que seu potencial tende a diminuir com a idade, mas essa condição, definitivamente, não impede a aquisição posterior de outra língua.

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