Saúde Mental no Ambiente Escolar

saúde mental na escola

Por Natália dos Santos

Após dois meses do atentado de Suzano, no qual  dois ex-alunos da escola estadual Professor Raul Brasil  mataram oito pessoas, feriram outras 11 e tiraram as próprias vidas, a comunidade escolar ainda encontra-se bastante abalada pelo ocorrido. O acontecimento trouxe a tona um assunto que há anos permeia as escolas de forma não prioritária: a importância de debatermos a saúde mental dentro da comunidade de ensino.

Enquanto horas depois do massacre  alguns políticos defendiam o porte de armas para professores, com o argumento de que desse modo o caso não teria acontecido, a maioria dos especialistas em educação trazia a necessidade de colocarmos a saúde mental como algo essencial nas bases curriculares das escolas.

No Brasil o caso de Suzano não foi o primeiro. Desde 2002, quando um aluno de 17 anos de uma escola particular de Salvador matou duas colegas de 15 anos, ocorreram mais quatro casos.

Por que, então, em uma situação como esta prefere-se armas como solução do que incluir saúde mental como parte da educação?

A banalização da violência por meio das mídias, o afrouxamento do tecido social, os choques dos valores e a decadência das figuras de poder, no Brasil e no mundo, são fatores que levam a sociedade, que até então era denominada como patriarcal, a uma dificuldade de lidar com a diversidade, corroborando para confusão dos valores fundamentais da boa convivência.

Essa confusão de valores levou ao aumento do bullying e cyberbullying entre adolescentes , uma vez que, segundo o relatório A Familiar Face: Violence in the Lives of Children and Adolescents (Um Rosto Familiar: Violência na vida de Crianças e Adolescentes), realizado pela UNESCO, 130 milhões de adolescentes entre 13 e 15 anos sofrem bullying, 17 milhões admitiram fazer bullying com outros colegas e 59 tiroteios em escolas foram registrados em 14 países nos últimos 25 anos.

A escola com o papel tão central na vida do aluno, tem a responsabilidade de vê-lo como um ser integral, desenvolvendo-o de forma cognitiva e socioemocional. Entretanto, no Brasil, ainda há pouca prevalência de estudos relacionados a saúde mental de crianças e adolescentes, havendo a carência da aproximação de políticas públicas em saúde com as escolas que levam ao desconhecimento de temas em saúde mental e falsas concepções  por parte dos professores.

Para transformar a escola em um local que oferece cuidados à saúde mental e que encaminha os alunos para os serviços de saúde, Celina Andrade Pereira, mestre em psiquiatria, aponta a necessidade da implementação de programas de capacitação de professores. É fundamental que tenham maior conhecimento e informações confiáveis sobre saúde mental e que sejam treinados na identificação de sinais que indiquem que um aluno possa ter transtornos mentais com a intenção de intervir na realidade em que atuam, fazendo os devidos encaminhamentos. Neste sentido, pode ser formada uma comissão de saúde mental na escola, composta pela comunidade escolar, que acionará a família e poderá informar sobre serviços especializados disponíveis.

Assim, não se atribui à escola a função que não é sua de atuação médica, mas sim um papel de criação de um ambiente favorável à promoção da saúde mental e de conexão com o corpo social responsável pela proteção aos jovens, como a família e o sistema público de saúde.

Referências:

ELPAIS. Saúde mental dos estudantes, mais um desafio para as escolas brasileiras.
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/18/politica/1552928918_526670.html

Nova Escola. Suicídio, o que a escola pode fazer?
https://novaescola.org.br/conteudo/12462/suicidio-o-que-a-escola-pode-fazer
PEREIRA, Celina Andrade. Capacitação em Saúde Mental para Professores do Ensino Fundamental e Seu Impacto no Ambiente Escolar. http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5142/tde-04022014-113920/pt-br.php

UNESCO.A Familiar Face: Violence in the Lives of Children and Adolescents https://data.unicef.org/wp-content/uploads/2017/10/EVAC-Booklet-FINAL-10_31_17-high-res.pdf