Frustrar-se faz parte! a arte de educar em tempos difíceis

Por Adriana Fóz

Atualmente, é notório a necessidade de nos atentarmos para os aspectos da saúde mental infantojuvenil, principalmente quando vivenciamos períodos de grandes mudanças e tensão emocional. Por um lado, a preocupação de alguns pais, por outro lado, a negligência ou superproteção de outros. Em ambos os casos, o importante é se informar por meio de fontes seguras.

Famílias e escolas testemunham desafios contemporâneos, tais como o aumento dos problemas de comportamento, o bullying, a automutilação, e até o suicídio. Lembrando aqui que o Brasil é o país “campeão” em ansiedade e que onde os casos de suicídio vêm aumentando, ademais, hoje é a terceira causa de morte entre adolescentes e jovens. A intolerância a frustração é um gatilho para problemas de saúde mental.

Habilidades como controle dos impulsos e tolerância às frustrações são importantíssimas para o amadurecimento de áreas cerebrais, tal como o pré-frontal, que é a última região a ser desenvolvida e tem um papel crucial para a tomada de decisões e autocontrole, dentre outras. O autocontrole tem um papel muito relevante para lidar com as emoções e com o estado emocional da frustração, ansiedade e para processar o estresse.

Treinar competências emocionais, tais como a paciência e perseverança, para esperar sua vez para falar, para esperar a hora de comer um doce, para terminar uma atividade que iniciou, para fazer uma tarefa necessária, mas que não é tão interessantes aos mesmos, no momento. Dizer um “não” com amor e responsabilidade, exigir comportamentos empáticos, gentis e perseverantes, oportunizar experiências ricas e coerentes de aprendizado são muito relevantes para o treino de habilidades e competências necessárias na escola e na vida.

Se perguntar para um pai ou uma mãe: Você quer que seu filho se torne maduro, autônomo e independente? Quer ainda que seja automotivado, feliz e satisfeito com sua vida? Se a resposta for sim, não haverá outro jeito para alcançar seus objetivos paternais e maternais, do que ajudá-lo a superar frustrações. Desde já afirmo que ajudar não é fazer por, comprar o objeto de desejo ou terceirizar responsabilidades. Uma criança que é o centro das atenções de um lar, que pode tudo o que quer ou que tem sempre um dos pais a protegê-la de seus erros, treinará menos a tolerância, a resiliência, a perseverança. De outra forma, os pais que sempre atacam quem o critica e que sofre mais do que seu próprio filho pelos seus irremediáveis desacertos e esforços, não serão bons exemplos.

Semana passada a mãe de um adolescente de 16 anos me informou que iria mudar seu filho de escola e entrar com uma ação contra a mesma  porque mais uma vez professores faziam “complô” contra ele, dando notas baixas e chamando sua atenção alegando comportamentos desafiadores e inadequados. Que mesmo diante a nova situação escolar de isolamento social, professores continuavam a recriminá-lo. Ainda segundo ela, seu filho era brilhante, um QI altíssimo e que a escola não estava compreendendo o gênio que iriam perder. Será que esta mãe estava sendo tolerante em perceber que seu filho não é perfeito e que talvez a educação que dá a ele também pode não ser? Da mesma forma que a escola também pode não ser tolerante e flexível em se adaptar ao novo modelo de educação que está surgindo, ainda mais com tantas e velozes mudanças no mundo, nas relações e na educação. Ainda mais agora, em tempos de confinamento, onde a flexibilidade, paciência e empatia devem intensificar.

A frustração, ao contrário do que alguns podem pensar, é um estado emocional necessário para o ser em desenvolvimento, genuinamente humano e não um sentimento de fracos. Aliás, pelo contrário, vivenciar frustrações pode fazer o jovem mais forte e capaz.

A tolerância a frustração exercita várias áreas cerebrais, desenvolve recursos e potenciais criativos, empáticos, perseverantes, dentre outros. A criança que aprende desde cedo que não temos tudo que queremos na hora que desejamos e que para conquistar algo é preciso primeiro se esforçar para talvez receber a recompensa, fortalece sua autoestima, não fica tão subjugada ao outro ou às situações adversas. É mais competente em se autorregular, ou seja, diante uma situação difícil tem mais estratégias para se superar e modificar a situação em prol do maior bem-estar.

Frustração não é palavrão. É arte para educar, no dicionário da boa educação!

 

Baseado no livro Frustração, editora Benvirá, da mesma autora do artigo.