Desligar para Funcionar

A sua rotina anda tão acelerada que está difícil pausar? Aprenda a dar alguns intervalos para ser mais produtivo quando a vida pedir

Por Joyce Moyses

ATREVISTA– 23/FEV/20 (Revista veiculada no Jornal A Tribuna – Santos)

Tem muita gente que parece viver ligada nos 220 volts, de tal jeito que sente dificuldade para sair do “modo acelerado” quando quer (ou precisa). A pergunta que não quer calar é: a gente deve mesmo desligar de vez em quando para funcionar melhor? Se sim, o que é bom para isso? “É importante dar intervalos durante qualquer atividade, porque é a forma do corpo, principalmente do nosso cérebro, funcionar melhor”, afirma Adriana Fóz, mestre em Psicologia Médica e Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora do Linc (Laboratório de Neurociências Clínicas da Unifesp). Referência em Educação Socioemocional, Reabilitação Cognitiva, Neurociência Educacional e Diretora da NeuroConecte, ela explica que você consegue manter a atenção, o foco em algo por 20 a 30 minutos no máximo. “Então, depois desse tempo trabalhando ou estudando, procure dar um tempo, levantar, tomar uma água, ir até a janela ou a varanda ou simplesmente retirar os olhos da tela ou do papel”. O expert em vendas, negociação e liderança Alexandre Lacava, por exemplo, fica feliz e relaxa quando toca bateria. “Dar um descanso à mente é uma atitude de autocuidado e inteligência emocional. O último mês foi bem intenso, com muita produção de conteúdo para vendedores do País todo, palestras e preparação do meu treinamento Comece Com o Pé Direito”, diz o autor do livro 7 Passos Para Ser Um Líder de Vendas.

• Você tem fome de quê? Adriana recomenda, na hora de se planejar, pensar em como vai cumprir suas metas sem se desgastar tanto com frustração, ansiedade, estresse… E ainda lembrar de incluir na rotina atividades básicas, que são comer, beber líquidos, movimentar-se, dormir o suficiente. “Claro, existem pessoas que conseguem manter o foco por mais tempo, outras menos; algumas são mais ativas e ansiosas, precisam circular mais, outras menos. Portanto, respeitar-se dentro do seu modelo de funcionamento é importante. Mas, de modo geral, falamos que as pessoas precisam dar intervalos, pois a vida saudável é feita deles, nada é para sempre”. Sem esvaziar a mente, como você vai renovar os seus pensamentos?

“Cada um deve criar as suas estratégias para dar uma desligada, se percebendo e sabendo que precisa fazer pausas para se reenergizar. Por exemplo, quando estou ansiosa com algo, paro por cinco minutos, pego minha caneca e coloco um café. Assim, identifico a minha emoção e manejo a situação”, conta Adriana, autora de livros como o best-seller A Cura do Cérebro e o infantojuvenil As Aventuras de Newneu – O Superneurônio.

“As pessoas precisam dar intervalos, pois a vida saudável é feita deles” ADRIANAFÓZ,NEUROPSICÓLOGA

• Estar 100% presente. O que é bom para isso? Pilates, um hobby como tocar bateria, comer? “Identifique o lhe dá mais prazer dentro do que é saudável e que permite se movimentar. Estudos comprovam que, para cuidar do físico, você deve fazer uma atividade durante 30 minutos, de três a quatro vezes na semana. Além disso, no momento em que trabalha ou em que dá uma relaxada, esteja inteiro naquele instante, para aproveitá-lo melhor”, orienta Adriana Fóz. Não fazer nada de vez em quando também é necessário? O ócio é produtivo? “O que é produtivo, cientificamente falando, são os intervalos. Qualquer pausa nas atividades cognitivas acaba sendo otimizadora. É por isso que entre as aulas na escola há intervalos regulares”, comenta a neuropsicóloga, acrescentando que linkar o ócio à produtividade pode ser um erro de interpretação: “A intuição não vem do nada, e, sim, de uma conexão direta com aquilo que você já fez, com a sua bagagem acumulada e processada mentalmente. No intervalo, ela aflora por seu cérebro estar mais livre e descansado”.

A restauranteur Dalila Foti acredita que a palavra não seja bem desligar, porque, “quando você ligar novamente, problemas e tarefas estarão lá para resolver. Penso que precisamos ter momentos de ‘go get some air’ (ir tomar um ar) e nos movimentarmos na nossa rotina”. Estímulos corporais – como uma aula de boxe, exercícios de ioga e até um ritual fitoterápico – são terapêuticos, promovem sensações e reflexões que acessam o nosso subconsciente e liberam hormônios do bem-estar. “O resultado é uma cabeça mais consciente e tranquila, uma pessoa mais saudável”.

• Medos e limites. Pense em uma pessoa “elétrica”. É Dalila, que tem no esporte um condutor emocional, vivendo o que diz: “Quando voltei a surfar, os meus pensamentos começaram a se encaixar de forma mais nítida. Hoje, também faço wakeboard e boxe para soltar os meus ‘demônios’; e treinamento funcional para fortalecimento e condicionamento físico. Quando vejo que preciso de calmaria, paro para meditar por uns minutos, olho para fora da janela, acalmo o meu estado futuro e busco pensar só no presente, fecho os olhos e respiro. Acendo um incenso, passo óleo de lavanda e, depois, volto às tarefas”.

Dalila é criadora do projeto Spiritual Surf, que leva mulheres interessadas em vencer seus medos e limites para a Praia da Baleia, no Litoral Norte. Lá, junto a experts, une ioga integrativa, o esporte no mar e sessões de thetahealing (técnica de meditação que ajuda a destravar crenças cristalizadas no subconsciente). “O Spiritual Surf foi um chamado. Eu buscava energia vital e descobri por meio de autoconhecimento, num processo de coaching, que ela viria ao promover experiências que transformam vidas, inclusive a minha. E a praia sempre foi a minha segunda casa, sendo o surfe uma paixão antiga”, conta ela, que há 19 anos trabalha com hospitalidade e consultoria para food service.

Pelo Spiritual Surf já passaram cerca de 200 participantes desde 2018, todas querendo encontrar sua energia vital, equilibrar papéis no trabalho, no relacionamento afetivo e familiar, aliviar traumas e até a solidão social. “Algumas continuam a surfar, outras se jogam no autoconhecimento e há as que iniciam outra atividade física e passam a cuidar mais de si”, relata Dalila, que está transformando o projeto numa empresa e marca. Por fim, sugere: “Priorize-se! Descubra o que lhe faz bem e procure realizar mesmo se bater medo. Entenda que somos feitos de luz e sombra; e tudo bem se um dia estivermos mais de um lado do que do outro. Só lembre de se observar, relaxar mais e pensar menos”.