Desenvolvimento emocional e a linguagem

NEUROCIÊNCIA EDUCACIONAL

Por Bruno Costa Caforio (UFABC – Universidade Federal do ABC)

Imagine que uma pessoa está chorando pelo fato de ter perdido um ente querido e uma criança está a observar esse episódio: se ela dissesse a você que a pessoa está “brava”, como você veria a interpretação dessa criança? Você diria que ela está errada e que, na verdade, a pessoa está “triste”? Ou você pensaria que a criança está fazendo essa interpretação com base naquilo que ela conhece sobre emoções naquele momento e que, na verdade, não há resposta certa ou errada? Não, não… uma pergunta melhor (e mais básica): você acha que existe resposta certa ou errada para esse tipo de questão?

Esse tipo de questionamento e reflexão sobre como nós, seres humanos, interpretamos e experienciamos as emoções é motivo de fortes debates dentro da comunidade científica atualmente. Além de estar envolvida em fortes debates, tal reflexão pode modificar drasticamente a forma pela qual fazemos políticas educacionais, implementamos estratégias de aprendizado, promovemos o convívio social, a inteligência emocional etc. Portanto, é de suma importância que tal debate atinja as diferentes camadas da sociedade que estão envolvidas com o desenvolvimento humano em qualquer nível (política, educação, família, mundo corporativo etc). É com base em tal contexto que iremos desenvolver, nessa postagem, uma breve explicação sobre uma categoria de teorias que tentam explicar a origem e o desenvolvimento das emoções em seres humanos: as teorias construtivistas.

As teorias Construtivistas

Teorias construtivistas sugerem que as emoções emergem da nossa cognição como resultado do nosso contexto social, cultural e das nossas capacidades linguísticas. Uma teoria construtivista atual e influente no meio científico é aquela proposta pela pesquisadora Lisa Feldman Barrett: o Modelo de Ação Conceitual (tradução livre de “Conceptual Act Model”). Essa teoria se contrapõe a visões clássicas sobre a origem das emoções em seres humanos que são amplamente disseminadas em nossa sociedade.

Com base em tais visões clássicas, é senso comum pensar que as emoções são entidades básicas e presentes na vida humana independentemente de contextos (cultura, p. ex.). Um exemplo que ilustra melhor o que as visões clássicas propõem sobre a origem das emoções é a forma pela qual elas são representadas no filme “Divertidamente”: neste filme, existem cinco emoções básicas (felicidade, tristeza, raiva, nojo e medo) que fazem parte da vida de um indivíduo desde o momento em que ele nasce. Porém, o que as teorias construtivistas propõem não está de acordo com tal representação, tratando as emoções como fenômenos complexos que são continuamente construídos e modificados de acordo com o desenvolvimento do indivíduo.

Além disso, também é comum se pensar que o aspecto emocional da vida humana (sua origem e seu desenvolvimento) nada tem a ver com o desenvolvimento linguístico; a relação entre linguagem e emoção não passa de um caráter descritivo, segundo tais interpretações. A linguagem serviria, basicamente, para descrever estados emocionais, sem nenhuma relação de causalidade com os últimos (saber dizer que você está “triste” quando você se sente desta forma, p. ex.). Porém, uma parcela da comunidade científica tem concluído que o desenvolvimento emocional dos indivíduos acompanha e é fortemente atrelado ao desenvolvimento linguístico dos mesmos; a capacidade de diferenciar e experimentar estados emocionais no nosso dia a dia parece estar atrelada à nossa capacidade de categorização linguística. Um dos achados que trazem força para essa hipótese é o fato de que crianças, com o passar dos primeiros anos de vida, passam a categorizar melhor estados emocionais assim como a utilizar mais palavras de significado emocional (Widen, 2016). Portanto, é como se o aumento do repertório linguístico levasse ao aumento da diferenciação e identificação emocional.

O gráfico abaixo representa uma junção dos achados de 11 estudos que mostraram a crianças (de diferentes idades) faces de pessoas expressando diferentes emoções. Quando essas faces foram apresentadas, pediu-se às crianças que as relacionassem com as palavras que descrevem os estados emocionais apresentados. Portanto, quando fosse apresentada a foto de uma pessoa sorrindo, a criança deveria associar a ela a palavra “feliz”. No gráfico, estão representadas as porcentagens de “acerto” das crianças em relação às idades:

 

Figura 1: ​trajetória do desenvolvimento de conceitos emocionais em crianças de diferentes idades. O tamanho amostral para cada grupo de idade foi: 2 anos (n = 94), 3 anos (n = 229), 4 anos (n = 299), 5 anos (n = 209), 6 anos (n = 74), 7 anos (n = 66), 8 anos (n = 61), e 9 anos (n = 33). De “​The development of children’s concepts of emotion”, ​ HandbookofEmotions ​ (Ed. 4, p. 310).

 

Portanto, pode-se observar que há um aumento gradual da capacidade das crianças de categorizar as emoções com o passar dos anos, o que acompanha o aumento do repertório linguístico das mesmas. Porém, se observarmos os dados, podemos concluir que mesmo aos 2-3 anos de idade crianças conseguem “acertar” com porcentagem relativamente alta as situações que envolvem emoções como “felicidade”, “raiva” e “tristeza”. A partir disso, as teorias construtivistas das emoções defendem que, nos primeiros anos de vida, as crianças possuem boa capacidade de discernimento do que é “bom” e do que é “ruim” (positivo ou negativo), sem diferenciarem emoções no sentido mais amplo (contextos sociais, psicológicos, estímulos ambientais, comportamentos e ações envolvidas nas diferentes emoções). Portanto, com o passar do tempo, as crianças desenvolvem a sua capacidade de identificação das emoções. Com base nessa identificação, alguns psicólogos propõem que as crianças passam a escolher estratégias (não necessariamente de forma voluntária) mais ou menos eficientes para a regulação emocional. Sendo assim, o que se propõe é que a regulação e identificação emocional depende do desenvolvimento linguístico; o desenvolvimento linguístico, por sua vez, depende de fatores sociais e culturais.

Mas qual a importância?

Mas afinal, por que essa discussão é importante? Bom… tendo em vista, por exemplo, que há grande disparidade entre pessoas de diferentes níveis sócio-econômicos com relação aos seus repertórios linguísticos e que tal disparidade pode influenciar capacidades como a inteligência emocional, devemos nos colocar à disposição para discutirmos os efeitos negativos que isso pode ocasionar e quais as formas que temos para tentarmos reverter a situação. Além disso, questões relacionadas às capacidades emocionais dos indivíduos têm se tornado, cada vez mais, questões de saúde pública, já que transtornos psicológicos de ordem afetiva têm se posicionado no topo da lista de transtornos que mais inabilitam pessoas.

Referenciais Teóricos

HOEMANN, Katie; XU, Fei; BARRETT, Lisa Feldman. Emotion words, emotion concepts, and emotional development in children: A constructionist hypothesis. ​Developmentalpsychology​, v. 55, n. 9, p. 1830, 2019.

LEWIS, Michael; HAVILAND-JONES, Jeannette M.; BARRETT, Lisa Feldman (Ed. 4, p. 310). Handbook of emotions​. Guilford Press, 2010.