O Potencial da atividade física para a Saúde e Cognição

O Potencial da atividade física para a Saúde e Cognição

Acabamos de desejar a muitas pessoas um “Feliz Ano Novo”. Alguns apostaram no prêmio aumentado da loteria para buscar um ano mais feliz, com uma possibilidade (minúscula, temos que dizer) de ganhar uma boa soma de dinheiro. Mas, do que depende nossa felicidade?

Pesquisas têm mostrado que o bem-estar e mesmo a felicidade dependem muito menos das circunstâncias e muito mais de atitudes, habilidades e comportamentos (Tkach & Lyubomirsky, 2006). Ou seja, ser feliz está muito mais relacionado com o modo como lidamos com a vida e com certos recursos internos para lidar com ela do que com os acontecimentos em si.

Essa parece ser uma afirmação simples, mas não significa que seja fácil, uma vez que se trata de questões subjetivas construídas ao longo da vida e de mudanças de comportamentos e hábitos arraigados. Mas o fato é que, em certa medida, pode ser um alento saber que mudar algumas pequenas coisas no cotiano pode ter um impacto importante em nossa qualidade de vida e no quanto nos sentimos felizes. E hoje falaremos sobre o potencial da atividade física.

Todos nós temos ouvido há muito tempo que os exercícios físicos são extremamente benéficos para a saúde física. Nisso não há novidade e muitas vezes buscamos incluí-los na nossa rotina pensando em manter o sistema cardiovascular em ordem, perder peso ou fortalecer os músculos para evitar problemas ósseos.

No entanto, nos últimos anos tem havido um crescente interesse das áreas de saúde mental nos benefícios da atividade física para a saúde e bem-estar emocional e psicológico. Uma revisão sistemática (pesquisa que levanta estudos sobre o tema no mundo todo) concluiu que exercícios físicos são recursos valiosos para a promoção da saúde mental e para a redução do risco de desenvolver depressão (Mammen & Falkner, 2013).

A atividade física melhora o humor e diminui o estresse, o que pode aumentar a percepção de bem-estar. Também pode favorecer o contato com a natureza, se é praticada ao ar livre, e aumenta a socialização (por enquanto com distanciamento e uso de máscaras), o que também traz impactos positivos.

É um conhecimento relevante quando se considera que os transtornos mentais acometem em torno de 14% da população mundial. Entre eles, a depressão, um dos transtornos mentais mais prevalentes que, por sua vez, está relacionada à piora da saúde de um modo geral (Hamer et al., 2012) e ao comprometimento da qualidade de vida.

Desse modo, é animador saber que os exercícios físicos são fatores de proteção para a saúde mental, contribuindo para a melhora do humor diário e bem-estar psicológico, já que se pode pensar em uma gama enorme de práticas que os tornam acessíveis e atraentes a praticamente qualquer pessoa.

Além disso, estudos com crianças entre 5 e 18 anos evidenciaram a relação entre atividade física e a melhora do desempenho acadêmico e de habilidades cognitivas, como concentração, memória e inibição de impulsos. E melhores capacidades cognitivas também são fatores de proteção para a saúde mental, o que potencializa a importância da atividade física em todas as idades, especialmente na infância e adolescência.

No último ano, potencializado pelas circunstâncias impostas pela pandemia, se estima que tenha havido um aumento da incidência de transtornos mentais entre a população em geral. A permanência em casa gerou para muitos uma diminuição da atividade física e destacamos aqui o impacto preocupante para crianças e adolescentes.

Assim, este é um bom momento para pensarmos seriamente em como incorporar a prática da atividade física em nossa rotina, de nossos filhos e alunos. Com calma, comece pensando em algo que você goste e que seja relativamente fácil e acessível. Não tenha medo de experimentar uma modalidade e depois mudar. Proponha o mesmo para as crianças e adolescentes.

A saúde do corpo e da mente agradecem!

Referências

Esteban-Cornejo, Irene, et al. “Physical activity and cognition in adolescents: A systematic review.” Journal of Science and Medicine in Sport 18 (2015): 534-539.

Mammen G, Faulkner G. Physical activity and the prevention of depression: a systematic review of prospective studies. Am J Prev Med. 2013;45(5):649–657.

Hamer, Mark, Romano Endrighi, and Lydia Poole. “Physical activity, stress reduction, and mood: insight into immunological mechanisms.” Psychoneuroimmunology. Humana Press, Totowa, NJ, 2012. 89-102.

Tkach, Chris, and Sonja Lyubomirsky. “How do people pursue happiness?: Relating personality, happiness-increasing strategies, and well-being.” Journal of happiness studies 7.2 (2006): 183-225.


Por Alcione Marques
Diretora da NeuroConecte
Mestre em Ciências pela UNIFESP, pedagoga, psicopedagoga Clínica e Escolar
com aprimoramento em Reabilitação Cognitiva.

 

 

Meu filho é viciado em eletrônicos?

Meu filho é viciado em eletrônicos?

Nomofobia – a Dependência Digital

Este é um tema que cada vez mais preocupa os pais, mas também os educadores, psicólogos, médicos e outros especialistas. E o mais surpreendente, é que muitos pais estão tomando consciência do fato por meio dos próprios filhos:

-“Mãe, acho que preciso de ajuda. Não consigo parar de jogar, só fico pensando nisso o tempo todo…”
ML, 11 anos.

A fala transcrita aqui nos impacta por dois motivos: o sofrimento da criança e a negligência ou não percepção por parte dos pais. Mas por ora vamos falar sobre o que é esta dependência e quais os impactos para a infância.

Também a OMS (Organização Mundial de Saúde) define a adicção ou vício como doença ou seja, a dependência digital, a nomofobia classificadas como patologias, mas por serem resultado de mudanças e avanços tecnológicos, muitos nem conhecem tal terminologia: non mobile phobia. Recentemente foram incluídos em estudos e pesquisas, mas com suficientes resultados e evidências científicas ao lado de outras, como as adicções às substâncias estimulantes(cocaína), euforizantes( ecstasy), sedativas(ansiolíticos) ou alucinógenas(cogumelos mágicos).

Importante acrescentar que há uma outra classificação nosológica, ou ainda, classificação de doenças na área da psiquiatria, a Classificação Francesa dos Transtornos Mentais da Criança e Adolescente (CFTMEA, em francês), que também identifica tais comportamentos nocivos. Para quem se interessa mais pela compreensão psicanalítica destes fenômenos pode procurar se aprofundar pelo trabalho de Rossano Cabral Lima (3).

O Guia Saúde da criança e do adolescente na era digital, lançado em 2016 é um bom material para se ter mais informações, principalmente quanto às interferências e mudanças no desenvolvimento infanto-juvenil que deixa de ser saudável (5).

Mas o que é excessivo? Qual o limite?

Espero não frustrar você, leitor, mas em termos de evidência científica ainda não há um substrato comum entre os estudos e estes não são tão conclusivos quanto as correspondências entre tempo de uso e danos.

No entanto sabemos que os jogos eletrônicos, assim como o uso da internet ou o uso excessivo de celular acabam trazendo problemas com o sono, impulsividade, aumento de ansiedade, depressão, agressividade, violência, intolerância às frustrações, dentre outros.

O imediatismo, a necessidade de terem tudo “num clic”, a falta de paciência é uma característica destes usuários que por si só não é promotor de seus desenvolvimentos, o qual é inerente o tempo, processos e compensações.

Já conhecemos muito como o cérebro de uma criança amadurece e se desenvolve, logo podemos fazer uso de nossas intuições, informações confiáveis e bom senso.

Refletir, pensar sobre o que uma criança perde enquanto está olhando para as telas, o quanto fica desnorteada quando não tem uma tecla para clicar, são dicas. O número crescente de crianças obesas, aumento de problemas psiquiátricos na infância, também são outras observações evidentes que valem a pena colocar atenção.

Abaixo coloco o que já foi bastante divulgado, que são as diretrizes da Associação Americana de Pediatria (AAP), as quais você pode encontrar na BBC News(1)*:

  • Para crianças com menos de 18 meses, evite qualquer uso de tela além de chamadas de vídeo;
  • Pais de crianças com idades entre 18 e 24 meses que desejam introduzir o uso de mídias digitais devem escolher uma programação de qualidade e assistir junto com seus filhos para ajudá-los a entender o que estão vendo;
  • Para crianças de 2 a 5 anos, o uso de telas deve ser limitado a uma hora por dia e a programas de qualidade. Os pais devem assistir com os filhos;
  • Para crianças de 6 anos ou mais, imponha limites consistentes, garantindo que o tempo de tela não atrapalhe o sono e a atividade física.

Instituições de pesquisa nacionais e internacionais são unânimes em alegar que o uso deve ser sempre supervisionado, bem como deve ser evitado o uso excessivo e prolongado, assim como podemos encontrar depoimentos da Sociedade Brasileira de Pediatria (5).

Crianças menores de 2 anos: não deve ser usado;
Crianças entre 2 e 5 anos: até 1 hora por dia;
Crianças entre 6 e 10 anos: até 2 horas por dia;
Adolescentes entre 11 e 18 anos: até 3 horas por dia, nunca “virar a noite”;
Todas as faixas etárias: nada de telas durante as refeições e desconectar entre 1 a 2 horas antes de dormir
Cada família tem suas escolhas e dinâmicas e também precisamos ter em mente que possíveis reflexos ou danos do excesso de exposição não serão percebidos tão imediatamente, já que o cérebro infanto-juvenil está em processos de transformações e precisa de prioridades para se desenvolver em sua melhor potência.

E é também inevitável aceitarmos que a tecnologia digital veio para não voltar- dados da pesquisa TIC Kiks Online(2018), realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mostrou que 86% das crianças e adolescentes brasileiros, entre 9 e 17 anos, estão conectados-, portanto é necessário saber lidar e usá-la para o melhor. Já dizia Paracelso, inquestionável médico do séc. XVI, “a diferença entre o remédio e o veneno é a dose”.

Sugiro então aqui um modo inteligente, razoável de mobilizar os pais de crianças para possíveis sinais de alerta, baseado no RCPCH (Royal College of Paediatrics and Child Health) (1) e em outros. Aconselhando os pais e responsáveis a se questionarem:

  • O tempo de tela na sua casa é controlado?
  • O uso de telas interfere no que a família quer fazer?
  • Seu filho tem dormido bem e o suficiente? E seu humor, tem alterado?
  • Você consegue controlar o que a criança come durante o tempo de uso de tela?
  • A criança deixa de comer o que gosta para jogar ou usar o eletrônico?
  • Seu filho tem trocado constantemente as relações pessoais pelas digitais, evitando as primeiras?
  • Deixa de fazer outras coisas que se divertia só para usar o eletrônico?
  • Já mentiu para encobrir o uso de eletrônicos? Ou tenta disfarçar que usa?

Tais questionamentos são mais efetivos do que colocar uma idade limite ou tempo limite para cada faixa etária, por incrível que pareça!

Inclusive para aqueles que são relutantes ao uso e se utilizam da informação que faz mal para os olhos, isso não é uma verdade cientifica. Então não a utilizem para convencer seus filhos, pois se eles aprenderam a usar a informação digital com mais competência vão saber que a Academia Americana de Oftalmologia alega que olhar direto para as telas não causa dano, mais pode ocasionar vista cansada ou a síndrome do olho seco, que se reverte com colírio lubrificante.

O pediatra Daniel Becker orienta o mesmo que orientamos: se quiser ter algum êxito com os filhos busque acordos familiares e sejam bons exemplos, do contrário causarão mais estresse e pior, a legitimidade da autoridade paternal tão necessária e importante, será “deletada”pelos filhos. Este é um preço ainda mais alto que todos pagarão, neste caso.

Por outro lado, toda criança que pode estar exagerando na relação com os aparelhos e mundo digitais, pode ter pais que exageram…

Será que tenho nomofobia?(2)

Você tem dúvida ou quer refletir melhor se está exagerando ou não no uso do celular?Abaixo alguns sinais nos adultos:

  1. Checar o celular a cada dois minutos, de forma obsessiva;
  2. Ter a impressão de que a toda hora o celular está tocando ou vibrando;
  3. Em casos mais extremos, sintomas de abstinência na falta do aparelho, como taquicardia e sudorese;
  4. Mentir sobre o tempo que gasta no celular;
  5. Ficar com o humor alterado e apresentar irritação sempre quando o sinal da internet desaparece;
  6. Ter o trabalho e as relações familiares ou com amigos em risco pelo uso excessivo do celular;
  7. Tentar diminuir o tempo na internet sem qualquer êxito (fonte:BlogPsicologia Viva)

Infelizmente ainda não encontramos um estudo que avaliasse a eficácia de qualquer tipo de intervenção terapêutica para jogadores adultos com sérios problemas de vicio de jogos eletrônicos e também para crianças. Mas há indícios de algumas formas de intervenção, como terapia de apoio e de aconselhamento, terapia familiar, terapia cognitivo-comportamental. Outras técnicas como neurofeedback e terapia com óculos 3D precisam ser mais estudados. Para escolher o terapeuta ou a terapia ouça o profissional, peça exemplos, indicações confiáveis, e observe o que seu filho fala ou expressa sobre o mesmo. Pergunte, tire suas dúvidas e conte com sua intuição e conhecimentos.

E também é preciso dizer que os adictos apresentam formas aumentadas de vulnerabilidade enquanto indivíduo e costumam apresentar baixa tolerância à frustração, alta esquiva ao dano, ansiedade acima do normal e baixa estima.

Mencionamos os aspectos emocionais e psíquicos, mas não posso deixar de falar dos aspectos cognitivos, tão importante quanto um estudo feito por Vásconez Villavicencio, da Universidade Técnica de Ambato no Equador, o qual concluiu que a nomofobia afeta de modo significativo o processo de ensino-aprendizagem, de acordo com a população pesquisada.

Portanto para prevenção de tristes e dolorosos cenários mentais, vale a pena cultivar a autoestima e o exercício dos limites com afeto e responsabilidade. Este “remédio” é muito menos custoso em vários sentidos.

Vamos evitar que a síndrome nomofobia seja uma epidemia, mas que seja um alerta e um ampliar de consciência dos adultos em prol da saúde e bem-estar de seus filhos e crianças.

Por Adriana Fóz

 


Referências:

1. ROBERTS, M. BBC News. Celular e tablets para crianças: passar muito tempo usando eletrônicos pode prejudicar desenvolvimento, janeiro de 2019.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-47036386

2- BlogPsicologia viva.O que é nomofobia? Entenda sobre a síndrome da dependência digital, julho de 2018.
Disponível em: https://blog.psicologiaviva.com.br/dependencia-digital/

3- LIMA, R. C. Estilos da Clínica, 2019, V. 24, nº 1, p. 173-177
DOI: 10.11606/issn.1981-1624.v24i1p173-177

4- ABREU, C. N. e cols . Rev Bras Psiquiatr. 2008;30(2):156-67. Dependência de Internet e de jogos eletrônicos: uma revisão.
https://doi.org/10.1590/S1516-44462008000200014

5- Sociedade Brasileira de Pediatria.O Guia Saúde da criança e adolescente na era digital,2016 (revisado em 2020).
disponível em: https://www.sbp.com.br/imprensa/detalhe/nid/sbp-atualiza-recomendacoes-sobre-saude-de-criancas-e-adolescentes-na-era-digital/

*Contudo, a Sociedade Canadense de Pediatria é ainda mais diretiva: não se deve usar nenhum eletrônico antes dos 2 anos de idade (1).

 

 

 

 

Neurociência da frustração em tempos digitais

Neurociência da frustração em tempos digitais

Por Adriana Fóz

 

Vivemos tempos digitais muito vulneráveis aos sentimentos frustrantes, às intolerâncias, ansiedades, e a internet tem estreita relação com os estados emocionais, tão desagradáveis. A queda de conexão, a lentidão da conexão wi-fi, etc., são fatores que vulnerabilizam os indivíduos ultimamente. As redes sociais também predispõem àqueles estados emocionais e acabam por encorajar pessoas com posições extremistas a se sentirem mais seguras e confiantes para expressá-las. Sem se importar com o outro, muitas pessoas que sentem impotência ou frustrações se comportam desta maneira, escondendo suas fraquezas e consciências. Colocam-se como se tivessem mais poder, e empoderadas, diminuem, ofendendo o outro.

A impotência, o sentimento de frustração e o não desenvolvimento de estratégias para lidar com tais situações, pois não fomos alfabetizados formalmente para se frustrar. Além, da necessidade que algumas pessoas têm de se impor sobre outras pessoas, levam a polarizações e extremismos em todo o mundo. Nas redes sociais isto se explicita cada vez mais e a psicóloga americana Pamela Rutledge1, diretora do Media Psychology Research Center (Centro de Pesquisas sobre Psicologia e Mídia), na Califórnia, faz importantes estudos sobre as redes sociais e o comportamento. Mas não é somente nas redes sociais que percebemos a intolerância e as polarizações, pois podemos testemunhar nas escolas, no relacionamento afetivo, no trânsito, no supermercado e assim por diante.

Portanto, nos dedicarmos ao tema da frustração é de grande valia para a saúde emocional e mental dos indivíduos. A frustração acontece quando não alcançamos objetivos, quando as expectativas são inatingidas, quando não realizamos desejos, sonhos ou projetos. É resultado de um processo cerebral que acontece para nos preparar para a realização de um ato, tem uma função “proativa” para o comportamento humano. Traz o incomodo que pode impulsionar uma ação.

Os estudos e pesquisas das neurociências têm avançado muito nos últimos anos, mas os conhecimentos das redes da frustração ainda engatinham. Apesar do incomodo da frustração ser tão antigo quanto sentir desejo, o aumento dos estudos de neuroimagem focados nesse estado emocional são mais recentes.

O circuito da raiva, já mais estabelecidos do ponto de vista das pesquisas robustas, é bastante similar ao da frustração, porém não é o mesmo. No entanto, a motivação e o sistema de recompensas do cérebro estão intimamente ligados ao circuito frustrante.

A neurociência já tem uma boa noção do que acontece quando estamos empolgados em buscar uma “recompensa”. Os circuitos de recompensa são bastante correlacionados ao neurotransmissor dopamina, que tem levado a fama de neurotransmissor do prazer, mas estudos recentes têm mostrado que atuam muito mais na motivação. O neurotransmissor dopamina inunda as vias neurais nos caminhos pela busca do desejo, caminhos que nos leva adiante. E não é exagero dizer que o motivo da busca do cérebro humano, é ser inundado por este bálsamo neural.

Segundo recente publicação do pesquisador Kyle E. Parker e colaboradores  o cérebro é um instrumento voltado para o equilíbrio e, de acordo com suas pesquisas, os mamíferos têm outro sistema que exerce uma força contrária sobre o aumento da recompensa, chamado sistema modulador da nocicepção (que também é a chave para a maneira como o cérebro modula a dor). Os neurônios deste sistema (apelidados de “neurônios de frustração”) emitem moléculas chamadas nociceptina que suprimem a dopamina. Logo, a nociceptina é anti-dopamina.

Os pesquisadores descobriram como isso funciona observando ratos à procura de açúcar escondido. Para obter o açúcar, eles tiveram que se esforçar, cutucar o focinho e lamber. Facilitaram, a princípio, para que tivessem motivação visando obter o açúcar, mas a cada tentativa eles passaram a dificultar um pouco mais o sucesso dos ratos. Depois de muito dificultar, os ratos cutucavam o focinho repetidamente e como ainda não conseguiam provar o doce, finalmente começaram a desistir. Eventualmente, todos eles pararam de tentar.

Enquanto isso acontecia, os pesquisadores rastreavam a atividade neural dos roedores e descobriram que os neurônios da nociceptina eram mais ativos quando os ratos desistiam. Mas vejam que interessante, esses neurônios ficam localizados perto da área tegmentar ventral do cérebro (ATV), o centro de atividades no sistema de recompensa! Por enquanto, o valor da descoberta poderia ser mais direto – simplesmente saber que “desistir” depois de se esforçar não é uma falha de caráter ou falha moral, é apenas outra maneira de o cérebro manter as coisas niveladas ou equilibradas.

A razão dessa interação entre aumento de recompensa e supressão de recompensa se resume à tendência do cérebro em direção à estabilidade e ao equilíbrio, conforme mencionado acima. É também conhecido como homeostase. Os cérebros dos mamíferos têm mecanismos inerentes para impedir que a busca por recompensas vá longe demais em qualquer direção. Na natureza, a continuação de um comportamento arriscado em busca de recompensas quando o sucesso está fora de alcance pode resultar em ferimentos ou morte, portanto, provavelmente herdamos esse ato de equilíbrio químico como um mecanismo de defesa, sobrevivência, uma estratégia altamente evoluída.

Imaginem a importância destes trabalhos! Distúrbios como depressão e dependência podem se desenvolver a partir desses sistemas regulatórios, ou de busca pela homeostase que não funcionariam bem por inúmeras razões.

“Podemos pensar em diferentes cenários onde as pessoas não são motivadas assim como a depressão e bloqueiam esses neurônios e receptores para ajudá-las a se sentirem melhor”, disse o autor sênior do estudo, Michael Bruchas2, cujo laboratório faz parte do  Washington University Pain Center, um centro multidisciplinar sediado no departamento de anestesiologia e psiquiatria, faz parte do EUREKA, um dos programas do National Institute of Health(NIH) .

Os pesquisadores pontuam que doenças neuropsiquiátricas que afetam a motivação podem ser melhoradas e que outros estudos em futuro recente podem esclarecer ainda mais esses e outros distúrbios, além de levar ao desenvolvimento de novas intervenções químicas para ajudar a restaurar o equilíbrio cerebral. É um ponto de luz para uma grande jornada, mas já é muito promissor, no meu entender.

Outro estudo bastante interessante que traz luz aos recém batizados neurônios da frustração- segundo o maior estudo com neuroimagem sobre frustração da atualidade-, é o do Rongjun Yu e colaboradores3, no qual verifica-se o circuito da frustração: amígdala, cinza periaqueductal (PAG), ínsula e córtex pré-frontal. Suas descobertas sugerem que a frustração pode ter uma função energizante. Como se a motivação que não aconteceu transforma-se em surtos (reações rápidas) agressivos, por meio de uma rede cortical, amígdala e PAG.

Ninguém gosta desta sensação e tampouco de não atingir objetivos ou alcançar expectativas, mas já que fazem parte da normalidade do cérebro humano, nos resta aprender mais sobre suas redes ou simplesmente treinar competências para superá-la4, concorda?

Quer saber mais sobre o assunto? Entre em contato conosco!

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

1- RUTLEDGE, P. ‘Impotentes e frustrados’ são os mais agressivos na internet, diz psicóloga. BBC News Brasil, 2015. https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150831_salasocial_agressividade_internet_rs acesso em: fev/20

2- BPARKER E., Kyle et al. A Paranigral VTA Nociceptin Circuit that Constrains Motivation for Reward. Cell.com,2019.

Crossref DOI link: https://doi.org/10.1016/J.CELL.2019.06.034. Acesso em: fev/20

3-YU,R e cols. The neural signature of escalating frustration in humans. sciencedirect.com, 2014. volume 54, 2014, pags 165-178. https://doi.org/10.1016/j.cortex.2014.02.013. Acesso em> fev/20

4- Fóz, A. Frustração. São Paulo: Benvirá, 2019.

 

 

O MALABARISMO PODE AJUDAR NA ANSIEDADE

O MALABARISMO PODE AJUDAR NA ANSIEDADE

Por Patrícia Kono

Em tempos difíceis às vezes não conseguimos lidar com as dificuldades e isso pode gerar ansiedade.

Novas atividades, assim como a prática do malabarismo que é uma atividade lúdica faz bem para a saúde física e mental, sem riscos de lesões e podem levar a descobertas de novas habilidades.

Pode ser praticado individualmente, em dupla ou em grupo em casa com pouco espaço neste período de quarentena. E é recomendável para pessoas acima de 3 anos.

Com apenas 3 pares de meias ou 3 bolas quaisquer você pode aprender esta nova modalidade que contribui na coordenação motora, concentração, reflexo, atenção, foco e até mesmo na redução da ansiedade, conforme comprovaram os estudos científicos.

Em 2007 cientistas japoneses investigaram os efeitos do malabarismo em mulheres com ansiedade. No período de 6 meses as pacientes praticaram por 10 minutos por dia e o resultado foi a redução nos níveis da ansiedade.

Além deste estudo, também já foi comprovado cientificamente o aumento da massa cinzenta e da massa branca no cérebro. O que significa a melhora na coordenação motora, atenção visual e na agilidade em nos movimentar. Também é resultado de aprender uma nova habilidade, mesmo que não seja totalmente dominada. O importante é o tempo que nos dedicamos para aprender.

Com base nestas informações, o malabarismo é uma modalidade recomendável para este período de quarentena.
Deixe tudo mais leve e divirta-se com esta atividade circense!

Para aprender malabarismo acesse o YouTube:
https://www.youtube.com/user/patcirco/playlists

 

REFERÊNCIAS
Draganski B, Gaser C, Busch V, Schuierer G, Bogdahn U, et al. (2004) Changes in grey matter
induced by training. Neuroplasticity: Nature 427(6972): 311–312.
Driemeyer J, Boyke J, Gaser C, Bu¨ chel C, May A (2008) Changes in Gray Matter Induced by
Learning—Revisited. PLoS ONE 3(7): e2669. doi:10.1371/journal.pone.0002669
Nakahara, T., Nakahara, K., Uehara, M. et al. (2007) Effect of juggling therapy on anxiety
disorders in female patients. BioPsychoSocial Med, 1: 10. doi:10.1186/1751-0759-1-10
Scholz J, Klein M. C., Behrens T. E. J., Johansen-Berg H. (2009) Training induces changes in
white-matter architecture. Nature Neuroscience 12, 1370 – 1371