Bem-estar do professor atinge cerca de 80% do aluno

Bem-estar do professor atinge cerca de 80% do aluno

Neuropsicóloga ressalta que o setor de educação precisa incluir a saúde mental em suas pautas. E educadora fala da importância de exercer a empatia para lidar com crises e retomar equilíbrio

Não dá para falar de saúde mental no futuro sem discutir o presente, como bem aponta a educadora e diretora da Camino School, Leticia Lyle. Em painel no terceiro dia da Bett Brasil, a professora discorreu sobre a atual situação dos estudantes, famílias e profissionais da educação ao lado da também educadora, neuropsicóloga e diretora da NeuroConecte, Adriana Fóz.

Leticia enfatizou que a sociedade ainda vive o “pêndulo da pandemia”. Perante o retorno do convívio físico e presencial, é notável a diferença nas relações. No cenário escolar, isso parece se intensificar para todos os lados. “A escola está incendiária, são muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo”, frisa.

Adriana Fóz destacou que saúde e educação caminham juntas.

“A mente não está só no cérebro, mas em todo ser integral”, diz a neuropsicóloga.

Para ela, a formação do professor continua sendo o principal ponto para alcançar metas em relação ao bem-estar do todo. “O bem-estar do professor atinge cerca de 80% do aluno”, disse.

Em aspectos gerais, a profissional também abordou meios da saúde mental ser promovida pela instituição em completo: para o educador existe a capacidade de, por meio de acompanhamento, perceber, identificar e manejar a respeito do psicológico de uma turma; A saúde mental deve ser tema recorrente no diálogo entre os profissionais, pais e alunos; Profissionais devem se manter informados para garantir prevenções de quadros mais graves.

Da esq. para a dir.: Adriana Fóz e Leticia Lyle

Leticia colocou que o momento atual é sentido por todos. Enquanto os estudantes estão ansiosos em relação ao aprendizado e relações, os pais se encontram esgotados após o período mais grave do isolamento social. Dentro das instituições, professores também sentem a exaustão na pele. Para o corpo docente, o sentimento é um padrão. Uma vez que estão sempre na linha de frente para lidar com os estudantes, através ou fora das telas.

Para Lyle, a saúde mental do futuro significa retomar um equilíbrio e, para isso, é fundamental que a empatia seja realmente exercida.

“Devemos trabalhar metodologias ativas com os estudantes para entendermos a necessidade de cada um. Com a família, existe uma necessidade de manter o diálogo, avisar o que está acontecendo e mostrar que a escola está atenta. Quanto aos professores, é de extrema importância um local de escuta, ter empatia e mostrar que eles estão em comunidade”, pontuou.

A educadora evidencia que em grupos separados não há trocas ou relações construtivas. “Não há uma única solução, é sobre sentir cada um e cada situação.”

Adriana acrescentou que atualmente não há mais segurança do amanhã. “Vivemos em um mundo que muda o tempo todo.” De acordo com Fóz, os aprendizados vindouros de grandes crises precisam ser validados.

 

 

 

 


2º Curso – Primeira Infância Primeiro – jornalismo & eleições

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EQUILIBRANDO OS PRATOS: NÃO SEJA TRAGADO PELO ESTRESSE

Quando pensamos sobre o que poderia nos fazer mais felizes neste novo ano, é possível que tenhamos incluído na lista termos menos estresse.

Dizer que está estressado se tornou quase que um lugar comum, um estilo de vida entre os adultos – e vemos crianças e adolescentes repetindo esse comportamento. É possível que, em alguma medida, muitos considerem que viver com altos níveis de estresse seja algo do qual não temos muito como fugir (a não ser quando estamos em férias).

Quando alguém diz “há muito estresse no meu dia-a-dia” o que de fato ela quer dizer é que há muitos estressores em seu cotidiano, ou seja, diversas circustâncias que a desafiam ou demandam.

O estresse, diferente do que muitos pensam, é algo natural e necessário. Em termos gerais, o estresse é uma resposta neurofisiológica do organismo frente a um desafio ou uma ameaça, resposta adaptativa que mobiliza o organismo para lidar com a situação. E nosso organismo está preparado para experimentar experiências estressoras e depois voltar a seu equilíbrio.

O estresse se torna prejudicial quando frequentemente é intenso, tornando-se crônico e comprometendo a saúde física, mental a qualidade de vida. Além disso, diminui a criatividade e a capacidade de aprendizagem.

É importante dizer que certo evento estressor não gerará necessariamente em todas as pessoas a mesma experiência de estresse. Isso dependerá de fatores como o contexto, os recursos que o indivíduo dispõe, o suporte social, entre outros que podem fazer com que um evento seja percebido como um desafio para alguém – que tenha recursos para lidar com o mesmo – ou como ameaça por outro – que se perceba sem estas condições. Assim, uma situação que pode ser altamente estressante para uma pessoa não será para outra.

Uma das formas para lidar melhor com os eventos estressores é desenvolver recursos para lidar melhor com situações desafiadoras para que o estresse seja menos intenso e menos prolongado.

Estes recursos podem estar mais relacionados com o contexto, como suporte familiar, social, educação, etc. Também envolvem certas habilidades individuais para lidar melhor com eventos estressores:

  • ser capaz de identificar problemas reais
  • pensar em diversas soluções, escolhendo a que não só seja mais vantajosa, mas que gere menor dano
  • planejar e executar soluções
  • ser capaz de encontrar recursos em seu meio que o ajudem a lidar com os desafios
  • desenvolver a resiliência: a capacidade de passar por um problema, adaptar-se a mudanças e superar obstáculos
  • saber lidar com emoções agradáveis e desagradáveis
  • manter uma postura otimista frente à vida
  • ter uma crença ou fé em algo transcendente

 

Muitas vezes não conseguimos mudar as circunstâncias, mas é possível, em alguma medida, mudarmos o modo como lidamos com elas, aprimorando estes recursos internos.

Neste ano que se inicia, procure identificar os recursos com os quais você pode contar a sua volta e aqueles que você considera que tem internamente. Lembre de situações difíceis e como você utilizou destes recursos para superá-las. Relacione também outras habilidades que você considera que poderia aprimorar para fortalecer-se frente aos desafios, pense de que forma pode desenvolvê-las – leituras? aconselhamento? fazer cursos? fazer terapia?

Estabeleça metas e observe como você se sai frente aos desafios que surgirão. Não desanime! Este é um esforço que trará como recompensa mais saúde e mais felicidade.


Por Alcione Marques

Referências

Glanz, Karen, and Marc D. Schwartz. “Stress, coping, and health behavior.” (2008).

Wheaton, Blair, and Shirin Montazer. “Stressors, stress, and distress.” A handbook for the study of mental health: Social contexts, theories, and systems (2010): 171-199.

 

Violência entre os Adolescentes

– O que pode ter desencadeado esse tipo de violência entre os adolescentes?

Resposta:

Comportamentos com este nível de violência, praticados por adolescentes tão novos, são desconcertantes e nos apavoram. São atentados ou ameaças a vida feitos por sujeitos que acabaram de sair da infância. Mas ao invés de serem encarados como ações isoladas ou eventuais, das quais nos esquecemos rapidamente, devem servir como um sinal de alerta e chamar a atenção de toda a sociedade sobre o que pode estar contribuindo para que aconteçam.

Quando olhamos estes três casos, observamos que, embora possa ter havido um evento disparador, que serviu de gatilho para estes comportamentos violentos, é importante entender que são sempre resultado de múltiplos fatores que se combinam, muitos dos quais nós, como sociedade, precisamos refletir e atuar. Se há algo de positivo nestes acontecimentos é nos acordar para um funcionamento social – que envolve a todos nós – que pode estar potencializando o aumento de comportamentos violentos entre os adolescentes.

Não temos como dizer com certeza os fatores que nestes casos específicos contribuíram para que estes adolescentes se comportassem assim, mas podemos refletir sobre alguns aspectos do nosso funcionamento social que podem ser desfavoráveis para o desenvolvimento emocional, mental e comportamental infanto-juvenil.

Estamos em um contexto de rápidas mudanças e transformações que geram incertezas e inseguranças. Para o adolescente, que já vive em um momento de transição entre a infância e a idade adulta, que está encontrando sua própria identidade, este contexto mais incerto potencializa suas dúvidas e pode aumentar a angústia e a ansiedade, fazendo com que esteja mais suscetível a reações impulsivas ou mesmo agressivas.

O adolescente naturalmente está buscando se integrar no grupo e ser aceito. O maior culto à imagem, potencializado pelas redes sociais, com jovens que se tornam celebridades muitas vezes com a divulgação de ações banais, pode ser um impulsionador para ações que “causem” e para comportamentos que, de alguma maneira, o destaquem no grupo, evidenciando sua ousadia e poder.

Infelizmente, minha percepção é a de que crianças e adolescentes estão cada vez mais solitários, recebendo menos cuidado e tendo menos oportunidades de diálogo e apoio em razão de diversas mudanças sociais nas últimas décadas que potencializaram o individualismo e o consumismo. Temos mães e pais trabalhando mais, menos contato com a família estendida (tios, avós e primos) e menos espaços de convivência, o que faz com que eles tenham menos oportunidades de desenvolver habilidades fundamentais de relacionamento e emocionais, o que pode contribuir para a pouca competência para lidar com conflitos e frustrações.

Este contexto também não favorece o entendimento de que há regras e limites que quando são cruzados geram consequências, algumas delas muito graves. Está faltando oportunidades para que crianças e jovens treinem suas habilidades sociais e compreendam o interjogo entre sua individualidade e a coletividade.

É importante destacar que a sociedade brasileira é uma sociedade que falha retumbantemente com as crianças e jovens, continuando a oferecer, para a grande maioria, uma educação de má qualidade, que não desenvolve as capacidades mínimas para lidar com um mundo cada vez mais complexo e que lhes dá poucas perspectivas. Poucos têm acesso a espaços de lazer e cultura e estão expostos a uma abissal desigualdade social e injustiça, sendo que os negros e mais pobres estão mais expostos à violência. Este contexto definitivamente está fazendo de nossa sociedade uma sociedade doente. Precisamos todos nós acordar para estes fatos e nos engajarmos para transformar esta realidade.

 

– Teria alguma relação com a pandemia?

Resposta:

Novamente, não podemos atribuir estes acontecimentos a apenas um fator. Mas temos que considerar que o Brasil está entre os países que mantiveram por mais tempo as escolas fechadas, o que, além das imensas perdas na aprendizagem, restringiu as oportunidades de crianças e jovens conviverem e poderem treinar e aperfeiçoar suas habilidades sociais, o que, como dito anteriormente, faz com que possam ter pouca competência para lidar com situações socialmente desafiadoras. Também há evidências de que no período de distanciamento social mais intenso houve aumento da violência doméstica, com crianças sendo vítimas de abusos ou presenciando agressões. Ainda não conseguimos avaliar todo o custo que estes dois anos de escolas fechadas vão gerar para estas gerações.

 

– Como a escola e as famílias podem lidar com essa situação?

Resposta:

Temos que urgentemente ouvir nossas crianças e adolescentes e, mais do que nunca, dar apoio, acolhimento e espaço para que possam trazer seus sofrimentos, tanto na família como na escola. As famílias têm que organizar momentos de conversa, convivência, trocas – somos seres sociais e falta de interações de qualidade nos leva ao adoecimento.

A escola precisa cuidar do clima emocional, planejando ações para que os estudantes se sintam pertencentes ao espaço escolar. A escola precisa ser um lugar emocionalmente seguro, onde todos os alunos sintam que podem encontrar apoio e proteção. Os adultos da escola – professores e todos que se relacionam com os estudantes – têm que ter consciência que toda interação precisa ser feita com afeto, cuidado e respeito.

E a escola precisa criar oportunidades diversas para a interação, não só na sala de aula, mas nas atividades esportivas, artísticas e culturais onde o estudante poderá ir treinando e aperfeiçoando suas habilidades de convivência.

E o poder público…bem, este tem tudo por fazer.


Alcione Marques é pedagoga, especialista em Psicopedagogia Clínica pelo Instituto Sedes Sapientiae com aprimoramento em Reabilitação Cognitiva, formação em Treinamento e Desenvolvimento (PUC-SP), pós-graduação em Neurociência do Comportamento (PUCRS), mestre em Ciências pela UNIFESP. É diretora da NeuroConecte e co-autora do livro Conversando sobre saúde mental e emocional na escola (Fundación MAPFRE, 2021).

ESPIRITUALIDADE E SAÚDE MENTAL?

Por muito tempo, as questões relacionadas à fé e a espiritualidade faziam parte de um âmbito que não dialogava com a Ciência, com a Medicina e com a Saúde.

As pessoas não falavam suas crenças espirituais ou religiosas com médicos ou outros profissionais da área e, quando o faziam, era comum que sua fala fosse ignorada ou tratada como algo de pouco valor, como uma dimensão que nada tinha a ver com a saúde ou com a cura de doenças.

No entanto, a posição da Ciência em relação à fé, à religiosidade e à espiritualidade vem mudando nos últimos anos. Alguns pesquisadores da área da saúde hoje falam sobre a “saúde espiritual” como uma das dimensões da saúde integral e ter espiritualidade ou fé é considerado com um fator de proteção para a saúde mental.

Vale diferenciar aqui religião e espiritualidade. A religião refere-se normalmente a uma prática organizada socialmente, baseada em crenças e tradições e associada a cerimônias ou rituais. Já a espiritualidade se relaciona com um senso de conexão individual com algo transcendente, que dá sentido à vida, levando a um sentimento de pertencimento e de aceitação profundos. Ambas buscam enfatizar o sentido mais profundo da vida e seu propósito.

Pesquisas têm mostrado que, para alguns pacientes, estes aspectos transcendentes são recursos valiosos para lidar com situações de adoecimento e auxiliam no enfrentamento de momentos difíceis na vida, que impõem alto nível de estresse. Evidenciam também a correlação entre espiritualidade, propósito de vida e bem-estar.

Desse modo, vale a pena pensarmos como nos relacionamos com esta dimensão humana: a transcendência. É um conceito amplo que envolve considerar o que está para além da vida material e tangível, e relaciona-se com o que acreditamos, temos fé. Pode envolver uma prática religiosa, com a qual tenhamos afinidade, mas não necessariamente.

É uma trajetória pessoal e íntima, embora seja influenciada pelos grupos com os quais convivemos, pela nossa cultura e que pode mudar ao longo da vida. É algo que envolve a capacidade de nos interiorizarmos e trazermos questões profundas sobre o sentido da vida e o que está além dela. Pode também se traduzir em uma busca por conhecimento, por concepções religiosas diferentes e por práticas que nos ajudem a encontrar a espiritualidade com a qual tenhamos mais afinidade.

Eu pessoalmente tenho experimentado nos últimos 25 anos um fortalecimento da minha espiritualidade, embora não professe nenhuma religião formal. É algo que tem me ajudado muito a lidar com momentos difíceis e contribuído enormemente para minha paz interior.

E você, como lida com a transcendência? Quanto tempo dedica à sua dimensão espiritual?

Como mostra a Ciência, esse pode ser um recurso importante para nossa felicidade.

 

 


Por Alcione Marques

Referências:

DEIN, Simon et al. Religion, spirituality and mental health. The psychiatrist, v. 34, n. 2, p. 63-64, 2010.

DHAR, Neera et al. Spiritual health, the fourth dimension: a public health perspective. WHO South-East Asia Journal of Public Health, v. 2, n. 1, p. 3, 2013.

KASHDAN, Todd B.; NEZLEK, John B. Whether, when, and how is spirituality related to well-being? Moving beyond single occasion questionnaires to understanding daily process. Personality and Social Psychology Bulletin, v. 38, n. 11, p. 1523-1535, 2012.

MIGDAL, Lori; MACDONALD, Douglas A. Clarifying the relation between spirituality and well-being. The Journal of nervous and mental disease, v. 201, n. 4, p. 274-280, 2013.