A emoção na escola: uma importante lição!

por Adriana Fóz

A relevância de educar nossas emoções

Emociono, logo existo. Parafraseando a famosa frase de Descartes “penso, logo existo”, o grande desafio da educação escolar de hoje é atentar para o ser humano e seu valor mais precioso. As emoções e o cuidado para com estas é um dever dos atores escolares, principalmente em tempos onde o medo, a insegurança e as frustrações ganham espaço na vida de todos. Quem já não experimentou a emoção da ansiedade em um dia chuvoso de trânsito na Capital Paulista? Ou ainda, quem não perdeu a cabeça com o filho ou o aluno em uma explosão de raiva? Quem já não percebeu o medo de uma criança ou de um jovem extremamente frustrado, principalmente com as últimas notícias de intolerância, violência e doenças mentais que ameaçam as escolas brasileiras?

Mas o que são as emoções?

Desde muito tempo atrás, até antes de Darwin sabia-se que haviam sistemas que de certa forma uniam o corpo ao cérebro, e dentre estes estão as emoções, assim como a alegria ou o medo. Podemos falar do sistema límbico, que tem estruturas e funções as quais processam a raiva, medo, tristeza, alegria, mas mais do que falar das estruturas sobre neurociências das emoções é importante darmos o devido espaço aos sentimentos, no nosso dia a dia.

Apesar de cada ser humano ser único em sua singularidade, diverso em suas potencialidades é simplesmente parte do todo da humanidade, e isso por si só já deveria ser motivo suficiente para todos se sentirem importantes e necessários. E talvez por isso, estamos aqui lendo e eu, escrevendo sobre a relevância de educar as emoções.

Parto do entendimento que cada indivíduo pode se desenvolver em prol de seu potencial criativo, empoderar-se de seu propósito e se sentir parte e protagonista de seu meio. Renovadas as competências emergem no cenário educacional como: a empatia, a resiliência, a criatividade inovadora. Treinar competências antes desvalorizadas, como a intuição e a gentileza, são tão importantes quanto exercitar o raciocínio lógico. As habilidades lectoescritas e digitais ganham nova importância, assim como poder expressar sentimentos, pensamentos individuais, mas também aprender com o que a história, as culturas, as diferenças entre os seres vivos ao longo da humanidade.

Sim, precisamos uns dos outros, precisamos de suas diferenças, afinal todos somos diferentes. Posso ser igual à você, pois trabalho com educação, porque moro em São Paulo, mas diferente pois, trabalho em um consultório, faço pesquisa no laboratório de neurociência clínica da UNIFESP, tenho dificuldade motora para caminhar, gosto de yoga, etc.. Temos um mesmo cérebro, em termos de suas estruturas, componentes e penduricalhos, mas ao mesmo tempo somos únicos e singulares. Neste sentido, cada qual deve ser incluído com suas diferenças e semelhanças e este renovado olhar precisa fazer parte da escola do futuro, que já começou ontem.

A verdadeira inclusão só acontecerá pela ação, pela educação

E para tanto a escola do século XXI é mais do que competente e necessária. A instituição escolar recebe crianças em formação, em amadurecimento. Participa do desenvolvimento cognitivo  e socioemocional de cada uma e precisa manter um relacionamento franco e aberto com os pais e comunidade. Possibilitar as conexões entre a informação e as habilidades em prol de competências para a vida em família, com amigos, no trabalho, no lazer etc.. Escrevi, no meu último livro intitulado Frustração (Fóz, 2019), que “…precisamos de nossas emoções para aprender Matemática e ensinar Ciência ou ainda, para nos sentirmos bem e capazes.” Este será um grande desafio da comunidade escolar.

Seligman, fundador da Psicologia Positiva, a qual visa determinar o peso das emoções boas no equilíbrio físico e mental, enfatiza a importância da educação positiva nas escolas do mundo moderno. A Educação Positiva é uma ramificação da Psicologia Positiva. Segundo Seligman, ela se refere à educação para o desenvolvimento das habilidades tradicionais voltadas para a maximização do desempenho e do desenvolvimento das habilidades para a realização humana, felicidade e bem-estar. Este autor defende os cinco elementos que as pessoas procuram como forma de melhorar a qualidade de vida: emoções positivas, engajamento, relacionamentos positivos, propósito e realização. Educação Positiva pode ser definida como educação para uma vida eficaz, porém feliz1! (Seligman et al., 2009).

Nas escolas a Educação Positiva pode funcionar como:

(a) um antídoto contra a desesperança;

(b) ferramenta de realização pessoal; e, sobretudo,

(c) para aprimorar as condições internas para aprendizagem eficaz e desenvolvimento de criatividade (Seligman et al., 2009).

Ora, se diante do atual cenário da educação brasileira, onde professores em situações muito difíceis em sua rotina e principalmente com os alunos, tais como: agressões verbais, agressões físicas, desprezo, apatia, dentre outras, é notória a necessidade de buscarmos mais recursos e atitudes. Quem trabalha com a educação sabe a valia de uma educação das emoções para a competência social e pedagógica. Sabemos também que ser professor não é ser psicólogo ou assistente social e escolas, não são espaços recreativos tampouco desarticulados dos anseios dos jovens. A questão, então, não é de fronteiras do saber, mas da conexão de saberes que ajudem a nossa profissão a ser mais eficiente, prazerosa e competente.

Neste sentido, cuidar da saúde emocional, cuidar do coração de uma escola faz parte de uma educação saudável, solidária e inclusiva!

 

Referência:

Fóz, A.( 2019). Frustração- como superar por meio das competências emocionais. Editora Benvirá,17(1),238-239.

2-Seligman, M. E. P., Csikszentmihalyi, M. (2000). Positive Psychology: An introduction. American Psychologist, 55(1), 5-14

 

Bibliografia:

1- Brothers L, Fridys Footprint: How Society shapes the human mind, New York: Oxford University Press,1997

2-Damásio,A. The feeling of what happens. First Harvest Edition,2000

3-Ekman,P. A linguagem das emoções. São Paulo:editora Lua de Papel, 2011

4- Esperidião-Antonio, V. Rev. Psiquiatria Clínica:35(2); 55-65,2007

5- Fóz, A. Frustração- como superar por meio das competências emocionais. Editora Benvirá, 2019

6-Griffiths P, What emotions Really Are: The Problem of Psychological Categories,Chicago:University of Chicago Press,1997

7-Goldin P e cols. The neural bases of emotion regulation: reappraisal and suppression of negative emotion. Biol. Psychiatry 2008; 63:577-86

8-Pergher GH, Grassi-Oliveira R, De AvilaLM,Stein LM. Memória, emoção e humor. Rev.Psiquiatria R.S.; 1(28): 61-8, 2006