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– O que pode ter desencadeado esse tipo de violência entre os adolescentes?

Resposta:

Comportamentos com este nível de violência, praticados por adolescentes tão novos, são desconcertantes e nos apavoram. São atentados ou ameaças a vida feitos por sujeitos que acabaram de sair da infância. Mas ao invés de serem encarados como ações isoladas ou eventuais, das quais nos esquecemos rapidamente, devem servir como um sinal de alerta e chamar a atenção de toda a sociedade sobre o que pode estar contribuindo para que aconteçam.

Quando olhamos estes três casos, observamos que, embora possa ter havido um evento disparador, que serviu de gatilho para estes comportamentos violentos, é importante entender que são sempre resultado de múltiplos fatores que se combinam, muitos dos quais nós, como sociedade, precisamos refletir e atuar. Se há algo de positivo nestes acontecimentos é nos acordar para um funcionamento social – que envolve a todos nós – que pode estar potencializando o aumento de comportamentos violentos entre os adolescentes.

Não temos como dizer com certeza os fatores que nestes casos específicos contribuíram para que estes adolescentes se comportassem assim, mas podemos refletir sobre alguns aspectos do nosso funcionamento social que podem ser desfavoráveis para o desenvolvimento emocional, mental e comportamental infanto-juvenil.

Estamos em um contexto de rápidas mudanças e transformações que geram incertezas e inseguranças. Para o adolescente, que já vive em um momento de transição entre a infância e a idade adulta, que está encontrando sua própria identidade, este contexto mais incerto potencializa suas dúvidas e pode aumentar a angústia e a ansiedade, fazendo com que esteja mais suscetível a reações impulsivas ou mesmo agressivas.

O adolescente naturalmente está buscando se integrar no grupo e ser aceito. O maior culto à imagem, potencializado pelas redes sociais, com jovens que se tornam celebridades muitas vezes com a divulgação de ações banais, pode ser um impulsionador para ações que “causem” e para comportamentos que, de alguma maneira, o destaquem no grupo, evidenciando sua ousadia e poder.

Infelizmente, minha percepção é a de que crianças e adolescentes estão cada vez mais solitários, recebendo menos cuidado e tendo menos oportunidades de diálogo e apoio em razão de diversas mudanças sociais nas últimas décadas que potencializaram o individualismo e o consumismo. Temos mães e pais trabalhando mais, menos contato com a família estendida (tios, avós e primos) e menos espaços de convivência, o que faz com que eles tenham menos oportunidades de desenvolver habilidades fundamentais de relacionamento e emocionais, o que pode contribuir para a pouca competência para lidar com conflitos e frustrações.

Este contexto também não favorece o entendimento de que há regras e limites que quando são cruzados geram consequências, algumas delas muito graves. Está faltando oportunidades para que crianças e jovens treinem suas habilidades sociais e compreendam o interjogo entre sua individualidade e a coletividade.

É importante destacar que a sociedade brasileira é uma sociedade que falha retumbantemente com as crianças e jovens, continuando a oferecer, para a grande maioria, uma educação de má qualidade, que não desenvolve as capacidades mínimas para lidar com um mundo cada vez mais complexo e que lhes dá poucas perspectivas. Poucos têm acesso a espaços de lazer e cultura e estão expostos a uma abissal desigualdade social e injustiça, sendo que os negros e mais pobres estão mais expostos à violência. Este contexto definitivamente está fazendo de nossa sociedade uma sociedade doente. Precisamos todos nós acordar para estes fatos e nos engajarmos para transformar esta realidade.

 

– Teria alguma relação com a pandemia?

Resposta:

Novamente, não podemos atribuir estes acontecimentos a apenas um fator. Mas temos que considerar que o Brasil está entre os países que mantiveram por mais tempo as escolas fechadas, o que, além das imensas perdas na aprendizagem, restringiu as oportunidades de crianças e jovens conviverem e poderem treinar e aperfeiçoar suas habilidades sociais, o que, como dito anteriormente, faz com que possam ter pouca competência para lidar com situações socialmente desafiadoras. Também há evidências de que no período de distanciamento social mais intenso houve aumento da violência doméstica, com crianças sendo vítimas de abusos ou presenciando agressões. Ainda não conseguimos avaliar todo o custo que estes dois anos de escolas fechadas vão gerar para estas gerações.

 

– Como a escola e as famílias podem lidar com essa situação?

Resposta:

Temos que urgentemente ouvir nossas crianças e adolescentes e, mais do que nunca, dar apoio, acolhimento e espaço para que possam trazer seus sofrimentos, tanto na família como na escola. As famílias têm que organizar momentos de conversa, convivência, trocas – somos seres sociais e falta de interações de qualidade nos leva ao adoecimento.

A escola precisa cuidar do clima emocional, planejando ações para que os estudantes se sintam pertencentes ao espaço escolar. A escola precisa ser um lugar emocionalmente seguro, onde todos os alunos sintam que podem encontrar apoio e proteção. Os adultos da escola – professores e todos que se relacionam com os estudantes – têm que ter consciência que toda interação precisa ser feita com afeto, cuidado e respeito.

E a escola precisa criar oportunidades diversas para a interação, não só na sala de aula, mas nas atividades esportivas, artísticas e culturais onde o estudante poderá ir treinando e aperfeiçoando suas habilidades de convivência.

E o poder público…bem, este tem tudo por fazer.


Alcione Marques é pedagoga, especialista em Psicopedagogia Clínica pelo Instituto Sedes Sapientiae com aprimoramento em Reabilitação Cognitiva, formação em Treinamento e Desenvolvimento (PUC-SP), pós-graduação em Neurociência do Comportamento (PUCRS), mestre em Ciências pela UNIFESP. É diretora da NeuroConecte e co-autora do livro Conversando sobre saúde mental e emocional na escola (Fundación MAPFRE, 2021).